domingo, 6 de maio de 2012

Metafísica do Abraço

Um braço no outro
E um laço enlaça
O corpo querido.
Enrosca-se
A carne, a idéia
O sorriso
O pranto, o grito.
Pra tanto sentimento
Pronta solução.
Embaraçados,
Os problemas
Não tem efeito
Sobre a mente
Abraçada
ou abraçante.
E se confunde
O tato e o tudo
E o quanto se gosta.
Forma-se Quimera
E a entrega
É mais que certa
Quem me dera
Quem me dará
O conforto
De um bom
Abraçar

Pedro Vargas

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Entrudo

Trovejam, na minha cabeça,
Pensamentos nebulosos de verão.
Um verão sem dono.
Sem sono.
Sem chão.

Verão abandonado,
Manchado por fatos
E fardos enfadonhos.
Fatos, tais, alheios à boca
Da clássica classe média
Burguesa. insustentada
Pelo Ecologismo
sob altas doses de demagogia
Que embaça a vista..

Agora nada importa.
Nem os mortos de fome que gritam
Dos tais pinheiros paulistas
Espancados,
Botados em trapos
pelos "Braços armados do povo.".

Nem os mortos que respiram
O ar empoeirado da capital.
Mortos de cansaço
Pra tudo há um basta.
Um chá de sumiço.
Afinal, Não existe Revés
Que um bom carnaval
Dê jeito.

Pedro Vargas

sábado, 24 de dezembro de 2011

A Língua

A língua lambia-me o pescoço
percorria-me o corpo, alvoroçada
Não sabia se era homem ou mulher
Era língua,
Era áspera, era linda
Molhava-me toda, atrevida
Entrava-me, gerando em mim
Lembranças ávidas de céu
Beijava-me os seios
Fazia-me seu brinquedo
Saliva lasciva girava em sonhos
Sonhos e gemidos de desejo

A língua enlouquecia-me pouco a pouco
E meu gemido agudo dizia tudo
Meu corpo não continha
O tanto de prazer que a língua me trazia
E o arrepio na perna
Entregava os pontos
Mais uma lambida
E pronto
Estava no céu, enxarcada

A língua crua
Me beijava a boca, nua
Provava meu próprio gozo
Retorcia o tornozelo
Pois a língua não parava
Não deixava respirar
Tornava sempre para os lábios
Os de baixo.

Pedro Vargas

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Poemas de bico

Capturo poemas
Com papel e caneta
Sempre que eles
Se metem a besta
De se meter comigo

Poema é sempre um passarinho
Que finalmente avoa do ninho
Um tipo de pipa cortada
Meio sem rumo
Meio sem nada
Que surge assim
Numa noite em claras
Ou em claro,
É claro.

Pedro Vargas

domingo, 4 de dezembro de 2011

Esfinge

Indecifraveis olhos
Devoram-me todo
De cima a baixo
Mastigam-me
Como se fosse sua comida

Olhos de névoa
Me encaram
Enquanto me engolem

Olhos de gato
Me enxergam
Enquanto consomem
Meu corpo
Entregue
Inerte

Olhos de gente
Me cravam os dentes

Olhos de esfinge
Em um corpo delgado
Moldado para o pecado

Olhos que me tiram o sossego
Me devoram
E me enchem de desejo
De tanto enigma ocular

Olhos de tanto segredo
Que parece um sonho
Que quando a gente acorda
Deita de novo na cama
Só pra voltar a sonhar

Pedro Vargas

domingo, 9 de outubro de 2011

Um breve pensamento saudosista

O papel que a caneta rabiscava
Hoje, obsoleto,
Reside a estante de um museu
Não mais apago,
Deleto
Não mais escrevo,
Digito
O que era belo
Agora é arquivo

Hoje é tempo de mudança
Meus dedos que seguravam lápis
Correm feito loucos
Pelas teclas do teclado
E meus olhos, pobres coitados,
Cansados da luz do monitor
Pedem ao meu corpo
Aconchego de luz apagada
E o calor de cobertor

Hoje não tem Tête-a-Tête
O mundo perdeu sua fala
A gente já nem mais existe
Sobrou apenas matéria
Que à duras penas resiste
A idéia já entrou pelo fio
A vida é um grande vazio
Porque a gente deixou se tornar

Hoje parece melhor,
Ou pelo menos
Soa plausível,
Que a terra perca o pudor
E passe a girar ao redor
Da tela do computador

Pedro Vargas

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Vizinhança


Fodem no andar de cima. E pelo andar da carruagem, não acaba tão cedo, a gritaria. Fodem, enquanto busco, no teto, uma esperança de sonho, ou sono, o que vier primeiro. Fodem, enquanto caço na TV algo que interesse à minha retina. Noite difícil. Bate uma leve inveja do que acontece lá em cima. Ouço os barulhinhos, a cama que range sem vergonha alguma. Como se a cama houvesse de ter vergonha. A cabeça viaja longe no negrume da noite e, no entanto, não alcança os braços de Morfeu. Parece que vou continuar escutando gemidos. Mesmo abafados, por um travesseiro molhado de suor, os gemidos ganham liberdade sonora e vêm se aconchegar no meu ouvido. Conversinhas sacanas. Pura matéria prima para um poema de sacanagem. Escuto tudo. Já que o sono não chega, aproveito pra conhecer melhor meus vizinhos. 

Pedro Vargas