terça-feira, 2 de agosto de 2016

Narciso

Narciso olho no espelho
Viu a si mesmo
e achou-se lindo.

Tão singular,
O reflexo que via
Ardia-lhe os olhos.
Ardiloso, apaixonou-se pelo eu
Que havia-se ali.
Lindo, lia, nos seus
Próprios olhos, o infinito
E bastava-se.

Postava-se diante
De um si mesmo
Que se descobrira,
Tão por acaso.
Sorria riso alto e rasante,
Um amor como nunca tivera
Também pudera,
Quem chegaria aos pés
De tamanha beleza
Estonteante?

Mas antes mesmo de beijar-se
Caiu em si
E afogou-se no ego
Do rio prateado
Envidraçado.
Os cacos que sobraram
Jamais se juntaram
Tamanho o estado
Da desgraça de Narciso

Que olhou no espelho
Viu a si mesmo
E achou-se lindo

Pedro Vargas

sábado, 30 de julho de 2016

O Salto Alto

A julgar pelo comportamento dela
Uma novela
Um novo salto alto
Lhe torneia as pernas
Ornamenta o pé
Enquanto tole o tornozelo
Todo zelo pode esperar
Por essa noite, Cinderela
Mais uma valsa
Até virar abóbora

A julgar pelo comportamento dela
Cinderela
Um carrossel
Um sobressalto alto
E o elo entre o pé e o chão
Se vai
Mais uma meia noite passa
E a carruagem se desfaz

A julgar pelo comportamento dela
Abóbora
A boba espera
Um príncipe encantado
E só encontra espera
E o seu salto era
Pra subir na vida
Caiu de lá de cima
Borralheira
Esborrachou-se
Como abóbora
Pelo chão

domingo, 3 de abril de 2016

Gávea

Na beira do precipício
propício início pra um fim
Vida inteira adiante
Diante dos olhos
Distante de mim

À rocha, mãe, agarro
Tal e qual gárgula,
Petrificado
Rendido à vista

Parado no alto
Da pirambeira:
Abismo entre o tudo e eu.
Quanto mais subo
Menor me torno:
Formiga, inseto,
Seta morro acima

Na beira do precipício
Sete macacos pulando
Sobre cabeça de gigante
Fenício

Do alto da pedra, vejo o vento
Com olhos mesmos,
Que a terra comerá.
Tamanha força há no sopro
Leva, leve como nunca
Pra onde não mais se volta

Agaves beiram a Gávea,
Enorme pedra fincada
Na paisagem.
Segredos e coragem
Jazem agora sob os pés doloridos

Na beira do precipício
Precipito-me
Grito-me
Renasço
Como a cobra
Que muda a pele
Quando cresce

quarta-feira, 30 de março de 2016

Légua

Eu vou meter o pé na légua, passa a régua na conta, eu já to por aqui Queria mesmo é estar lá. Légua adiante: Diante dos olhos estrada 
Caminhos, encruzilhadas, Marcadas a migalhas de pão Atrás só vejo pegadas, Cicatrizes da partida, Pó, poeira e chão Ê, Légua, Indica o melhor caminho Contigo eu não to sozinho Sorrio e sigo
Pra frente é que se deve andar Ê, Légua, Bússola aponta o destino, Meta é só mera formalidade Desvios são necessidade Qual quer cidade, qualquer Maneira, qualquer direção Se não aqui, Bastou
Se for pra lá,Tá bom

Pedro Vargas

segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

A praia de criança

Sair e ver o mar
Na companhia de uma criança
É ter respaldo de infância
Pra se esparramar

Não carece licença
Para se erguer castelos na areia,
Todo um reinado em tons de bege,
Frágeis como a própria vida,
Desmoronarão na primeira maré

Sentir no rosto o sal da maresia
Ouvir os mares guardados na concha
(um oceano à parte)
Furar as ondas, pegar jacaré
Só sair da água quando enrugarem os dedos
E secar o corpo com a ventania
Que a arrepia até os cotovelos
Se abrigar do Sol em um coqueiro
Se refrescar tomando picolé

Mas o que é bom se passa tão depressa
E o Sol se põe fadando, à tarde, um fim
Como a infância que jaz na memória,
esquecida no trajeto da História,
E só uma criança brincalhona
Sem nenhuma cerimônia
Traria à tona, de dentro de mim

terça-feira, 22 de setembro de 2015

Ser eia

E disse o destino que seria ela sereia
Tão menina, ainda.
Tanto acreditou que nadou, nadou
E nada
Pobrezinha
Cresceu descadeirada
De tanto nadar e não dar em nada
Com o corpo jogado na praia
Como areia, se viu que sorria
Que servia ser só moça
Que ser peixe
É salgado demasiado

Que ser, então?
Ei-la aí a pergunta
Que não cala.
Eis que a reles menina
Desatina a gargalhar
Ser ou não ser sereia?
Ou engolida por baleia?
Ou engolir uma bala?
Ou embalar uma valsa
No meio do fundo do mar?

"Serei eu o que quiser"
Disse ela em tom de desafio
"Se o destino disser: serás isso!
Aí é que serei justamento o contrário
Por puro gosto em ver
A cara de paspalho
Que o destino tem quando se irrita"

E foi nessa desdita que deixou pra trás
A menina, a sereia, ou ilusão qualquer
Para tornar-se mulher


domingo, 2 de agosto de 2015

HUMUS

Conheço homens de todos os tipos
tipos e credos, incrédulos, incontroláveis.
Há os homos, os héteros, os trans,
Homens transitam por diversos estados,
Territórios, traços, trejeitos,
Tamanha é a potêncialidade do seu ser.

Ser humano,
Não sei sê-lo sem pensar o que seria
Des-ser Humano,
Descer, ser menos, silêncio
No lugar da expressão.
São tantos os seres dentro de mim,
Não admito ser apenas humano,
Já que vivo desumanizado,
Demasiado o estímulo de negação.

Eu era homem, fui castrado.
Costuraram minha boca,
Calaram o meu falo.
Agora falam por mim,
Escolhem minha roupa,
Definem meu sotaque,
A música que ouço,
Mesma comida pronta,
A mesma programação.

Um ataque, um último, um íntimo.
A subjetividade, coitada,
Moldada pelo meio que vive
Convive com covardia,
Reproduz selvageria,

Humano é tudo que me falta
Seria humano se não fosse menos
Seria menos se não fosse humano
O que me distorce a humanidade
Também é, e principalmente isso,
O que me torna digno dela.

A Humanidade, idade das idéias,
Cidades, cinismos, sintomas,
Sentinelas, Sentimentos,
Centelhas, centímetros.
Sem tetos, Sementes,
Semântica, Semáforos

Seres sem sentido
Seresteiros, certos de si,
Seremos mesmo humildes
Para ser Humanos?


Pedro Vargas